O que resta do tempo é o terceiro filme da trilogia de Elia Suleiman, que teve início em 1996 com Crônica de um desaparecimento. Em 2002, o segundo filme da série, Intervenção Divina, projetou o diretor em todo o mundo como o mais importante cineasta da Palestina.
Os três filmes fazem uma espécie de crônica do conflito entre árabes e israelenses, mas em momento nenhum tentam elucidar as tramas políticas da questão, como explica o próprio diretor. Segundo ele, o que lhe motiva é antes de tudo a oportunidade de relatar experiências estéticas e humanas. “Como a história de meus pais”, completa.
De fato, para entender seu cinema, é preciso saber que Suleiman – apesar de palestino – não está falando de dentro. Ele vive na França e é com os olhos de um exilado que contempla a vida daquela região – uma vida que já não encontra referências que façam sentido e que por isso foge ao absurdo e ao cômico, uma vida perdida no tempo, um presente ausente – como indica o subtítulo do filme.
É diante desse vazio que o cineasta-ator prosta-se com sua famosa inexpressividade à Buster Keaton. Seu rosto, aliás, parece ter sido feito especialmente para esse humor triste, do homem que acostumou-se a um mundo estranho. (Outra comparação comum é com o diretor francês Jacques Tati, mestre do gênero).
O que resta do tempo desenvolve-se em esquetes e, a medida que avança, parece ir se despreocupando cada vez mais com uma linha narrativa bem definida. A história, para aqueles personagens, já não tem tanto peso. Antes de fazê-la avançar, seria preciso vencer a guerra.
E é aí que o futuro – a exemplo do passado – se faz distante, ampliando o vazio do presente. “Se todos bebessem como eu, veríamos os aviões inimigos a dois metros de nossas cabeças e poderíamos agarrá-los com as mãos”, diz um dos personagens. Impotentes, eles não veem outra saída que não o desespero, a loucura ou o esquecimento de seus próprios ideais. Resta à mãe do protagonista sentar-se à janela – como há décadas fazia seu marido – e olhar, simplesmente olhar.
Ao final, a dissolução narrativa chega a se tornar incômoda. Temos então nada mais que situações isoladas e anacrônicas e personagens que mal sabemos o que estão fazendo ali. “Onde estou, onde estou?”, repete estupefato o motorista que conduz o personagem de Suleiman, depois de se perder em meio a uma tempestade.