Fernando Meirelles está longe de ser meu diretor brasileiro preferido, mas não duvido de sua importância, sobretudo num cenário escasso de talentos com espaço para produzir como o cinema nacional.
Por isso confesso que fiquei um pouco chocado com uma parte de sua entrevista para o Jornal do Brasil na edição de hoje. Ele falava da dualidade cinema comercial X autoral quando soltou uma comparação no mínimo esdrúxula.
Transcrevo aqui a pergunta do repórter e a resposta completa do diretor:
Repórter: Virou moda diretores lançarem seus filmes anunciando expectativas de que o filme bata a casa do milhão. Como vê essa corrida do ouro?
FM: Ainda bem que existem excelentes diretores que fazem filmes que levam milhões de pessoas ao cinema. Este troço funciona um pouco como o mundo da moda ou da Fórmula 1. É preciso ter aqueles que correm mais riscos e experimentam para que a linguagem e a técnica evoluam, mas também são importantes os outros, que adaptam estas invenções para o grande público e que, no fundo, são os que viabilizam e justificam as experimentações. Quando um artista quiser testar os limites de suas ideias ou de sua subjetividade às vezes é melhor escrever um poema. Cinema não é a forma mais adequada para a expressão pessoal. É trabalho de muitos para muitos.
Não sou daqueles que se ofendem quando alguém resolve defender o que quer que seja a respeito do cinema. Opiniões são sempre bem-vindas. Mas achei estranho o modo simplório como ele tratou um tema que com certeza já deu assunto pra um bocado de teses por aí.
Lembrei também de um livro do Laurent Tirard que reúne entrevistas de 40 grandes diretores, como Scorsese, Woody Allen, Wim Wenders e Godard. Eles divergem em muitos pontos, mas quase todos defendem que um bom filme tem que ser feito para o próprio diretor. Eles não ignoram o público é claro, apenas acreditam que o cinema só pode ser chamado de arte quando – como na literatura ou na pintura – ele é o resultado de uma vontade pessoal.
Com a palavra, o senhor Scorsese: “(…) quanto mais um filme é a expressão de uma visão única – quanto mais ele é pessoal, portanto – mais ele se aproxima do estatuto de obra de arte. O que significa que ele sobreviverá mais longamente à prova do tempo, que poderemos revê-lo centenas de vezes sem nos cansarmos”.
Isto não resume nenhuma “política dos autores”, como aquela pensada pelos jovens da Nouvelle Vague (e hoje bastante criticada pelo próprio Godard). Mostra apenas que o assunto não é tão superficial para ser tratado em termos de cinema comercial x autoral.
Às vezes uma resposta mal pensada reduz demais uma questão que merece muito mais reflexão do que a que cabe em cinco linhas. (Ou vai ver isso é realmente o que ele pensa e pronto. Vai saber).
Ainda bem que não sou doutor em nada pra não correr o risco de ser entrevistado. Ficaria com tanto medo de falar bobagem que minhas respostas seriam mais vagas que as dos irmãos Coen.