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Um dos hobbies preferidos da maioria dos jornalistas e estudantes de jornalismo que conheci até hoje é falar mal da profissão. Os temas são muitos: baixos salários (sempre começa por aí), desrespeito a horários, depreciação do trabalho, pouco espaço para a verdade, coberturas superficiais e viciadas etc.

Por isso, tinha a curiosidade de conhecer a opinião de um jornalista que houvesse estudado e trabalhado na Espanha, país que supostamente disfruta de um dos jornalismos mais avançados do mundo.

Eis que hoje encontro por acaso uma doutoranda em literatura, formada em jornalismo. Ela já havia passado pelas redações do El Mundo e da Rádio Nacional Espanhola e o que tinha a dizer era que não há mercado para jornalistas aqui. Disse que havia optado pela carreira acadêmica para fugir de um jornalismo guiado por interesses corporativos e que não valoriza o trabalho de um repórter. Em sua opinião, trabalha-se muito, de maneira burra e por salários ridículos.

Melhor continuar buscando por aí, não?

Depois de uma semana na Escandinávia (Oslo, Estocolmo e Copenhaguen), desembarquei em Marrakech, no Marrocos. Da neve para o sol do deserto e – principalmente – da ordem de cidades feitas pra funcionar para o caos de um lugar que cresceu sem rédeas.

De certo modo, a capital dinamarquesa se parece com a sueca que por sua vez se parece com a norueguesa. As ruas são largas e limpas, as pessoas são distantes e educadas, o transporte funciona e o clima é – quase sempre – de segurança. Mais do que isso – existe no ar um desejo de que se perceba a vida desse modo. O olhar do vendedor do supermercado é o de quem se sente na obrigação de afirmar uma segurança própria de um país livre de problemas.

Não à toa, parece que a desordem encontra seu lugar mais na loucura que na infração. É por aí que escapa o residual. Não tive medo de assaltos, mas tomei um chute e um soco de um louco que gritava pelas ruas de Copenhaguen às quatro e meia da tarde (já era noite, na verdade).

Chegando de ônibus ao centro de Marrakesh, foi como se terminasse de sair de um sonho um tanto escuro e entorpecente pra me jogar numa hiper-realidade. Ali não há tempo pra respirar. É impossível andar pela praça Jemma El Fna como um turista apartado da vida do lugar, registrando tudo de longe com uma máquina fotográfica.

É colocar o pé na rua e já se está exposto à agressividade de uma cidade que tenta de todos os modos te fazer pagar por alguma coisa. Pode ser por uma foto com um macaco, um suco de laranja espremido na hora ou uma explicação sobre o trabalho dos curtidores de couro – qualquer coisa lhes serve para conseguir alguns dirahms.

E não adianta dizer ‘não’ a um vendedor que te oferece uma pulseira com o rosto quase colado ao teu. Ele vai gritar até que você tenha sumido na próxima esquina do souk (o mercado de rua), onde um outro vai te pegar pelo braço e te puxar até sua loja enquanto repete qualquer coisa em cinco idiomas diferentes até se fazer entender.

Em Marrakech, a principal atração já não é um prédio ou uma paisagem que se possa estampar num guia de viagem, mas a relação que cada um acaba criando com o povo marroquino, sempre sedento e cheio de uma vida que pode nos parecer bizarra e cansativa.

No fim das contas, gostei de ter feito essa transição radical. Parece que quando confrontamos tão prontamente culturas em muitos pontos opostas como essas, podemos ver mais claramente traços que de outro modo ficariam escondidos.

testeFui passar o dia em Oviedo com Vicky Cristina Barcelona na cabeça. Antes de ver o filme, nunca ouvira falar na cidade, mas agora ela já era parte indispensável do meu itinerário. Woody Allen me dera três ou quatro cenas de um lugar banhado a vinho e violão espanhol, em que eu já imaginava Vickies e Cristinas andando pelas ruas.

Acontece que esqueci de avisar a elas que eu estava chegando. Acabei encontrando não a Oviedo que havia imaginado, mas uma outra muito diferente – bonita e encantadora, sem dúvida, mas diferente.

Ainda que eu soubesse bem das artimanhas ilusivas do cinema, não pude evitar uma ponta de decepção.

Ao lado da igreja, uma estrada movimentada; em frente ao mercado em que passeavam os três, uma feira para turistas. Não havia ali nenhum diretor rabugento organizando o quadro, melhorando a luz, escondendo a estrada ou a feirinha.

Quando voltei pra casa, revi algumas cenas do filme e foi como se de fato não houvesse estado naquelas ruas horas antes. A Oviedo que aparece na tela é a de Woody Allen, diferente da minha e provavelmente da de qualquer outra pessoa. Ainda bem, é claro. Assim temos a chance de, cada um a seu modo, inventar uma cidade diferente. No final das contas, é tudo ficção.

Quando estávamos em Londres, eu e três amigos fomos a Greenwich atrás de um fish and chips que supostamente seria um dos melhores da cidade. Comemos, conhecemos o lugar e, já no fim de tarde, pegamos um dos famosos ônibus londrinos para voltar ao centro.

Tudo ia muito bem até que uma passageira começou a dizer que o motorista não sabia o que estava fazendo. A cada curva, ela balançava a cabeça em sinal de reprovação e ficava mais irritada. Como o resto dos passageiros parecia ser tão turista como nós, ficaram todos calados, provavelmente pensando que a mulher não ia bem da cabeça. Afinal de contas, como é que um motorista de ônibus poderia se perder? E ainda por cima em Londres!?

Assim ficamos até que uma freada brusca nos acordasse. Semáforo? Engarrafamento? Não – era o motorista que tinha entrado numa rua errada. Era incrível, mas ele estava realmente perdido.

Com isso, a inglesa avançou na direção da cabine com cinco pedras em cada mão. Ao mesmo tempo em que perguntava aos gritos como ele conseguira aquele emprego, tratava de ensinar-lhe curva a curva o caminho certo.

“É por ali, senhora?” “Não! Vira aqui!! Aqui!!!”

Era uma cena inacreditável. A cem metros do ponto final – quando até nós já conhecíamos o caminho – ele continuava perguntando o que fazer. Eu já via a hora em que sairia da cabine o Mr. Bean com roupa de motorista e aquela cara de quem não sabe o que está fazendo ali.

Não tem jeito – seja onde for, parece que o charme dos símbolos turísticos está sempre disposto a escorrer pela realidade. (Tá, os ônibus vermelhos continuam charmosos, mas se eu entrar em algum outro, vai ser difícil não rir sozinho).

Brasil? Ah…

Em 9 de 10 vezes que um europeu me pergunta de que país eu sou, a resposta gera um “ah…” fácil de se decifrar. É como se a palavra “Brasil” estivesse sempre acompanhada de três ou quatro imagens exageradamente coloridas: festa, praia, mulheres, futebol.

Se me perguntam qual a minha cidade, de novo um “ah…”, só que agora ainda mais forte. Por trás de um sorrisinho carregado de malícia, quase posso ver passar um filme em que desfilam mulatas de biquini, garotos fazendo embaixadinhas e, claro, o capitão Nascimento.

Exemplo: numa propaganda não lembro de quê, um sujeito encontra o irmão gêmeo de seu pai, perdido há muitos anos, no Brasil. Vestido de marinheiro, ele aparece ao lado de algumas mulatas segurando um abacaxi improvisado como copo diante de uma praia que com certeza só encontraríamos no Caribe.

É certo que esse tipo de associação superficial (e muitas vezes errada) acontece com qualquer pessoa de um país minimamente conhecido. Involuntariamente, pinçamos um ônibus vermelho em Londres, uma vaca solta nas ruas de Nova Dheli, um bigodudo comendo bacalhau em Portugal… Mas o fato é que nenhum lugar (ao menos pela minha experiência por aqui) gera reações tão expressivas quanto o Brasil.

A fantasia é tão convincente para eles que nem uma visita ao país parece lapidar suas impressões.

Exemplo: numa aula de literatura espanhola (!), o professor tentava explicar a importância da poesia para os espanhóis do século XVII. “Era como um esporte”, disse. E aí veio a comparação um tanto esdrúxula: segundo ele, quando foi ao Rio de Janeiro, ficou impressionado com a quantidade de campos de futebol que viu entre o aeroporto e o centro da cidade. “Era um atrás do outro. Eles jogam futebol o tempo todo – por isso existem tantos bons jogadores brasileiros”.

Ok, não há dúvidas de que o futebol é o esporte nacional. Mas sentado no fundo da sala, comecei a refazer o caminho do Galeão até o centro e não consegui encontrar todos esses campos. Será que ele foi ao Rio de Janeiro certo?

Aviso afixado numa parede da Estação de ônibus Sul de Madrid:

1. Vigile constantemente sua bagagem, nunca se afaste dela;

2. Mantenha os objetos pequenos na mão;

3. Se lhe fizerem uma pergunta, não responda, querem lhe distrair;

4. Se jogarem moedas ou outros objetos diante de você, não os apanhe;

5. Se lhe disserem que você tem uma mancha ou um rasgo na roupa, não faça caso.

Nos oito dias em que estive na cidade, ouvi pelo menos umas cinco histórias de roubo, além de muitas recomendações para tomar cuidado com os batedores de carteira, especialmente no metrô.

É triste ter de se preocupar em não perder a máquina fotográfica quando há tanta coisa pra ser registrada.

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Em alguns dos principais pontos turísticos de Madrid, o que mais chama a atenção são as obras. Uma moradora chegou a me dizer que já não se lembrava de como era a Puerta del Sol (“centro do centro” da cidade), depois de tantos anos de tapumes escondendo a praça.

Lámpara

E então ele anda, anda como se soubesse onde está com a precisão de quem passa pela mesma rua há décadas. Olhando para o chão, busca um detalhe qualquer no piso disforme da calçada – quase sobre sua cabeça, o prédio do século XIX não merece a mesma atenção.

Um fio de água da chuva ainda escorre pelo paralelepípedo; uma ladeira muito íngreme chega a uma casa abandonada; duas árvores formam uma sombra estranhamente pequena em uma praça deserta; noutra, prédios altos impedem que o sol se aproxime.

Arrastando os calcanhares no chão só para ouvir o barulho do cascalho, ele esquece o esforço da atenção para perder-se não em desejos, mas na ausência.

E como se alguém o chamasse com um grito, levanta o olhar até as nuvens que enfim apareceram e depois o pousa sobre a perspectiva tão peculiar dessa rua sem nome, nova como todas as outras. Ele não sabe como chegou ali e é exatamente isso que o empurra até a próxima esquina.

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Para algumas coisas, faltam palavras até mesmo em nossa língua materna – o consolo a alguém que acabou de perder o emprego, por exemplo.

Agora imagine, numa situação assim, ter de consolar alguém que vive sozinho contigo num apartamento, mas que você conhece há apenas um dia. E ainda em espanhol.

Minha cara de idiota deve ter sido das mais ridículas até hoje. Primeiro, não entendi o que ela havia dito e por isso soltei meu sorrisinho que uso quando me falha o espanhol (geralmente funciona). Depois, quando entendi, tudo que consegui dizer foi “que mierda, ¿no?”.

Na última sexta-feira, descobri que tinha que ir à Oficina de Extranjería para solicitar uma tal carteira de estudante, que faz o papel de um visto de 1 ano. Isso porque até agora meu visto é de apenas 3 meses. Não entendi muito bem a lógica desse processo, mas tudo bem.

Na tal oficina, devia haver uns dez estrangeiros, a maioria um tanto assustada. E aí reparei num detalhe interessante. De frente para nossas cadeiras – onde esperávamos para ser atendidos por uma das cinco senhoras que trabalhavam lá dentro – havia um único cartaz preso à parede branca. Ele mostrava um sujeito latino com um olhar 43 ao longe, dando a entender que sofria de saudades. Logo abaixo, estava escrito: “Si estás pensando en regresar… Plan de retorno voluntário”. Bela mensagem de boas-vindas a quem acabou de chegar ao país.

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OBS: A quem não está muito interessado em minhas peripécias pela terra de Cervantes (clichê do brabo), prometo que assim que arrumar o que ainda está pendente (apartamento, carteira de estudante, matrícula na universidade etc) me dedicarei mais a conhecer o que de cultural este país tem a oferecer, que não é pouco. E aí coloco por aqui o que me parecer mais interessante.

O que de resto as (terras) espanholas quiserem me proporcionar, talvez eu guarde pra mim mesmo.

Hasta luego!

Um detalhe interessante que reparei na Oficina: só havia um cartaz pendurado
na parede, que mostrava um sujeito latino com cara de que tava com saudades de
casa. Embaixo, estava escrito: “Si estás pensando en regresar… Plan de
retorno voluntário”. Bela mensagem de boas-vindas a quem chega ali.

Assim que cheguei a León, a impressão não foi das melhores. Vi uma cidade média normal (ainda que mais organizada) – cheia de prédios, carros etc.

A segunda impressão já foi bem melhor. León é, na verdade, uma cidade dentro de outra. Por fora, moderna e cheia de pressa como qualquer outra; por dentro, um centro histórico com movimento restrito de carros, ruas de pedra apertadas, bares, praças escondidas, monumentos antiquíssimos e muitos turistas. É fácil se perder aí, já que tudo é parecido e apertado. Até mesmo a catedral – enorme – só se revela quando já estamos quase em frente a ela.

É nesta região que fica o alojamento onde estou hospedado e também onde tenho passado a maior parte do tempo.

Uma placa na entrada de uma loja avisa: Horário: de 09:30 às 13h e de 16:30 às 20:30. É, a tal siesta espanhola realmente funciona. Às 15h, só se vê alguns turistas pelas ruas. Algumas delas estão realmente desertas e o silêncio é impressionante.

Aliás, com ou sem siesta, algo que chama a atenção para um brasileiro aqui é a quantidade de espaços sempre vazios. Em muitas praças e ruas, a impressão é de que todo o mundo está em suas casas.

O reflexo da crise está nas vitrines: frases como “Liquidação total” e “Rebajes finales” são muito comuns. E, no entanto, muita gente (turistas) parece estar comprando.

Tenho que fazer uma menção especial ao jamón. Acabei de comer um prato cheio, acompanhado de um pão espanhol com tomate. O garçom me olhou um pouco espantado quando pedi uma porção inteira (ración), mas acho que podia até ter comido mais uma.

Acho que pareci meio maluco a algumas pessoas por quem passei nas muitas caminhadas de hoje. É que andei quase o tempo todo falando sozinho em espanhol – por falta de gente pra conversar durante o dia, fui treinando comigo mesmo.

À noite já consegui alguns interlocutores de verdade. Bem melhor (e mais difícil), diga-se de passagem.

Dia 1

Coincidências de viagem: No vôo para Paris, sento à janela ao lado de dois sujeitos que conversam sobre qualquer coisa relativa a passar seis meses na Espanha. Pergunto e descubro: fazem direito na UFRJ e estão indo para Salamanca.

Conversamos, brindamos algumas vezes com a champagne liberada da Air France e combinamos uma ida a Ibiza.

O 747: uma lata de sardinha.

A imigração: e chega a parte mais temida da viagem – os brutos policiais da imigração espanhola. Pego os documentos e começo a pensar no que vou ter que tirar do envelope – carta da faculdade, seguro, extratos, endereço do albergue… Mas peraí! Aquilo ali não é a porta de saída do aeroporto? Cadê a imigração? Bom, essa foi só na França mesmo (o que vale é a entrada na UE). Um sujeito sonolento que olhara apenas o passaporte, dera um carimbo sem graça e esboçara um “obrigado”.

A polícia: além de não termos passado pelo serviço de imigração espanhol, acabamos conversando sobre festas universitárias e futebol com um policial do aeroporto bastante simpático, morador (mais uma coincidência) de León.

E last but not least, as espanholas: seria verdade que elas olham os brasileiros com um sorriso um tanto mais expressivo nos lábios?

Sim, é verdade.

Bandeira da Espanha

Para os que ainda não sabem, viajo hoje à tarde para a Espanha – vou estudar por seis meses na Universidade de León.

Por isso, este blog passa a partir de agora a contar também com relatos do que quer que eu viva, veja, aprenda ou desaprenda em terras européias. Continuam as “cartas”, muda apenas o “aqui”.

A Erva do Rato

No primeiro plano de A Erva do Rato, o desfoco extremo – confusão de significados, indefinição. No segundo, a calma contemplação do mar e uma panorâmica que acaba revelando um cemitério quase vazio. A câmera estaciona novamente, como que respirando diante de um novo quadro meticulosamente recortado.

É a única cena externa para os dois personagens (os de Selton Mello e Alessandra Negrini). Logo, a iluminação barroca do interior da casa – elaborada por  Walter Carvalho – junta-se a uma sonorização claustrofóbica para dar forma e relevo a verdadeiras pinturas.

Os dois olhando-se contra uma parede amarelada; sentados à mesa para o chá; ele em pé, calculando os passos e observando-a alguns metros à frente. Tudo obedece ao rigor da “moldura”, das marcações e dos diálogos que às vezes até parecem lidos.

É assim – como numa apresentação de slides – que Júlio Bressane explora os limites da percepção do real num mundo repleto de signos confusos. Onde estaria a verdade em meio a tudo o que vemos? Seria possível capturá-la com os sentidos?

Espécie de compilador do conhecimento científico, o personagem de Selton busca nas formas do corpo da mulher qualquer coisa que escapa ao olhar. Ele aproxima a câmera fotográfica de sua pele como se quisesse invadí-la, capturar o que talvez transcenda a matéria.

Sofrendo de tuberculose, ela morre e o que resta é seu esqueleto – é a invasão da matéria em seu limite; a percepção da presença do outro no que ela tem de mais absurdo.

O que dizer de um triângulo amoroso em que um rato é o terceiro personagem? Capaz de dar prazer à mulher e tornar-se inimigo do homem, ele impõe-se como interferência, elemento capaz de engendrar o medo.

Tanto o esqueleto como o rato são signos, transformados em símbolos como tudo aquilo que se torna pensamento e interpretação. É ainda a relação da exterioridade do real com a interioridade da percepção humana.

O filme nasceu de dois contos de Machado de Assis: A Causa Secreta, que trata do horror ao rato (a questão do devir-animal, como quer o próprio diretor) e Um Esqueleto, que fala do convívio do homem com o corpo já sem pele nem carne.

De acordo com Bressane, no entanto, esses dois textos são apenas traços sensíveis que dão origem à trama. A primeira coisa que se deve perceber, segundo ele, é que eles são “máscaras de papelão”. O que realmente importa, ainda nas palavras do diretor, é a curiosidade de saber o que está por trás das máscaras.

No ritmo do livro aí de baixo, um poema do espanhol Blas de Otero.

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Si algo me gusta, es vivir.
Ver mi cuerpo en la calle,
hablar contigo como un camarada,
mirar escaparates
y, sobre todo, sonreír de lejos
a los árboles…

También me gustan los camiones grises
y muchísimo más los elefantes.
Besar tus pechos,
echarme en tu regazo y despeinarte,
tragar agua de mar como cerveza
amarga, espumeante.

Todo lo que sea salir
de casa, estornudar de tarde en tarde,
escupir contra el cielo de los tundras
y las medallas de los similares,
salir
de esta espaciosa y triste cárcel,
aligerar los ríos y los soles,
salir, salir al aire libre, al aire.

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Andre GideÉ curioso como às vezes (e no meu caso são muitas) um livro vem, acidentalmente, somar-se de modo pertinente a determinado momento da vida. É quando sentimos que o acaso joga também a nosso favor.

Foi assim – por acaso – que comecei a ler Os Frutos da Terra, de André Gide, uma reunião de poemas e textos em prosa que pregam a necessidade de se lançar à vida com intensidade e sinceridade, numa valorização da experiência em oposição ao resguardo. Mais amor que sabedoria, eis o ensinamento que o escritor de apenas 28 anos desejava passar a Nathanael, seu discípulo fictício.

Enquanto outros publicam ou trabalham, passei três anos de viagem a esquecer, ao contrário, tudo o que aprendera com a cabeça. Essa desinstrução foi lenta e difícil; foi-me mais últil do que todas as instruções impostas pelos homens e, realmente, o começo de uma educação.

O livro foi escrito em 1897, momento em que a literatura francesa estava imersa no chamado decadentismo. Levados por uma visão pessimista do mundo, os adeptos dessa corrente buscavam a valorização extrema de uma sensibilidade estética que vinha se contrapor tanto ao realismo quanto ao naturalismo. Por meio de artifícios estilísticos diversos, eles compartilhavam o gosto pelas questões do inconsciente e pela manisfestação da “vida interior” de todas as coisas.

Apesar de ter escrito livros que tendiam ao decadentismo – como Les Cahiers d’André Walter (1891) e Les Poésis d’André Walter (1892), Gide insurgiu-se contra os rumos das letras francesas ao publicar Os Frutos da Terra. No prefácio à edição de 1927, ele diria: “Escrevi este livro num momento em que a literatura cheirava furiosamente a convenção e mofo; em que me parecia urgente fazê-la tocar de novo a terra e pousar simplesmente um pé no solo”.

Nathanael, eu te ensinarei o fervor. Nossos atos prendem-se a nós como a luz ao fósforo. Consomem-nos, é certo, mas fazem nosso esplendor. E se nossa alma pôde valer alguma coisa foi porque ardeu com mais ardor do que algumas outras.

Ele adotou a partir de então uma simplicidade de estilo que se tornaria sua marca, com a qual fez uma espécie de relato de sua própria descoberta do que considerava a verdadeira Vida.

O sentimento de uma plenitude de vida, possível mas ainda não-alcançada, deixava-se por vezes entrever, e tornava a voltar, cada vez mais obsessiva. Ah!, que uma nesga de luz se abra enfim, gritava, que arrebente em meio a essas eternas represálias!

Era como se todo o meu ser tivesse como uma necessidade imensa de se retemperar no novo. Aguardava uma segunda puberdade. Ah!, refazer uma visão nova para meus olhos, lavá-los da sujeira dos livros, torná-los mais semelhantes ao azul que contemplam – hoje completamente clareados pelas chuvas recentes.

Gide não deixou de acreditar em Deus, mas passou a buscá-lo em todas as coisas, a inventá-lo. Procurá-lo já era tê-lo. Além disso, deixou de lado a contemplação do mundo a que se dedicavam os decadentistas para prestar atenção em si próprio, para colocar-se no mundo, e não o contrário – “que teu olho seja a coisa olhada”, diria.

Ele não renunciou à leitura e ao pensamento, mas passou a acreditar que essas são práticas que devem somar-se a uma vida intensa, dedicada mais à volúpia que à reflexão.

(…) tu compreenderás que é somente com muita alegria que se compra algum direito ao pensamento. Será chamado realmente forte o homem que se diz feliz e pensa.

A fotografia e a literatura naturalista têm muito em comum, já que a primeira se presta (ainda que não necessariamente) a captar um instante da “realidade” (com ênfase para as aspas) e a segunda pretende descrever essa mesma realidade também em sua forma mais pura, livre do idealismo romântico.

Não é estranho descubrir, portanto, que Émile Zola – considerado o pai do naturalismo – tenha sido um aficionado pela arte de fotografar. Em 1888, entusiasmado pela técnica ainda incipiente, ele comprou uma dúzia de câmeras e montou três laboratórios de revelação. No mesmo ano, aliás, George Eastman – o fundador da Kodak – inventou o filme fotográfico em rolos substituíveis, que permitiu a popularização da fotografia.

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Zola chegou a fazer cerca de 7 mil fotos até sua morte, em 1902, o que para a época era um número incrível. Interessavam-lhe as paisagens, a arquitetura, as mudanças de estação, as pessoas e seus ofícios e os grandes eventos como a Exposição Universal de 1900, durante o qual documentou a construção da Torre Eiffel. Nem mesmo quando se viu obrigado a fugir para Londres, em meio aos conturbados meses do caso Dreyfus, o escritor deixou de lado a fotografia.

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Junto com essa descoberta, veio ainda a paixão pela então jovem costureira de sua esposa, Jeanne Rozerot. Ele teve dois filhos com ela, mas nunca se separou de Alexandrine Meley, que não pudera lhe dar herdeiros. Jeanne aparece em muitas das fotos de Zola, como numa tentativa de confirmar e legitimar a existência dessa segunda família.

Em carta, ele escreveu: “O rompimento dessa vida dupla que tive que levar acabou por me desesperar. (…) Jeanne me entregou sua juventude e me devolveu a meus trinta anos, fazendo-me o irmão mais velho de minha Denise e de meu Jacques”.

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(Via Babelia)

Passado mais de um mês do fim da Flip, pude ter uma visão melhor da repercussão causada pela visita do português Lobo Antunes ao Brasil. Muito se falou sobre sua obra, difícil num primeiro contato, mas aparentemente encantadora para muitos dos que insistem.

Minha preocupação não é a respeito da qualidade de seus livros, já que essa avaliação sempre foi e continua sendo subjetiva (o que, por outro lado, não deve impedir a crítica realmente interessada, é claro).

O que me incomoda é perceber o medo de parecer ignorante que impede grande parte de seus leitores de dizer algo tão simples como “achei chato” ao final de uma leitura. Eles buscam palavras como quem move-se num quarto escuro para relativizar suas opiniões frente a quem lhes parece “mais culto”. Questionam o próprio entendimento da obra para se juntarem à maioria.

Sim, é legítimo desconfiar de si mesmo quando se tem uma idéia ruim de algo que para todo o mundo parece bom (será que parece?). Mas é salutar apenas quando se assume o risco de ser sincero. Só então é que torna-se possível discutir, expor e ouvir argumentos para, quem sabe, mudar de opinião, tentar uma segunda leitura, prestar atenção a detalhes antes ignorados.

É evidente que uso Lobo Antunes apenas como exemplo. Esse mesmo fenômeno passa com qualquer escritor já consagrado. Se estiver morto então, a coisa fica ainda mais complicada. É um festival de engessamento que leva sempre a uma compreensão superficial da literatura.

Como disse no início do post, andei dando uma olhada no que se falou sobre os textos de Lobo Antunes desde a Flip e achei curioso como o discurso geral está envolto em um medo disfarçado de respeito que trava a discussão. Fica claro que muita gente nem chega ao fim de seus livros, mas prefere justificar o abandono com desculpas mais eruditas.

Pois eu prefiro dizer que acho o estilo de Lobo Antunes chato. É truncado, cheio de desvios e metáforas dentro de metáforas. Parece que para entender o que ele quer dizer sou obrigado a testemunhar um exercício de estilo cansativo.

Sei também, no entanto, que essa é uma opinião que, como qualquer outra, pode e deve mudar nos próximos anos. Daí a importância da releitura que, como diz Ariano Suassuna, é a verdadeira arte da leitura. Daí também a beleza da literatura, que dá novas e infinitas caras a um livro na medida em que nos transforma.

Para quem nunca leu Lobo Antunes, aí vai um trecho de O Conhecimento do Inferno, de 2006. (É claro que não se pode tirar desse parágrafo uma avaliação da obra do escritor – falta contexto para se entender o motivo da construção estética; quero apenas dar uma idéia de seu estilo, bem representado pelas linhas que seguem).

Os médicos chegavam às onze horas, examinavam clinicamente a língua do rio pelas varandas fechadas à chave, um rio aprisionado também nos caixilhos, azul e plano como as férias grandes, comungavam cafés rituais nos seus confessionários laicos separados por estreitas divisórias de tabiques, aumentavam ou diminuíam as doses dos remédios consoante o frenesim das pacientes, e entravam por fim, em grupo, na sala de jantar, distribuindo em volta sorrisos de tratadores. Cada sorriso gritava Eu sou saudável e tu és maluca mas se te portares bem talvez possa fazer alguma coisa por ti, conseguir que te tornes tão normal como nós, tão normal normal como nós, tão normal normal normal como nós, três pílulas ao pequeno almoço, três pílulas ao almoço, três pílulas ao jantar, as doentes aquietavam-se em silêncio, os internos disseminavam-se estrategicamente na plateia, Faz de conta por um bocadinho que somos todos iguais, o assistente instalava-se voltado para o público com a indulgência bondosa de um ministro num sarau de província, cruzava a perna e entre a meia e a calça reluzia um pedaço de carne peluda idêntica à gelatina dos polvos, à gelatina das gordas flores marinhas de Sesimbra, e sempre nesse momento, no exacto instante em que a sessão principiava, apetecia-me levantar-me latindo para morder aquele naco redondo de canela, a canela do Poder que oscilava como um pêndulo o sapato de verniz numa serenidade paciente.

Poemas latinos

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De onde vem o fazer artístico? Como é possível que nasçam num ator brasileiro do século XXI as mesmas inquietações que motivaram um dramaturgo russo na virada do século XIX para o XX? Desconstrução e construção, memória e invenção, viver e interpretar – são essas as questões que Eduardo Coutinho volta a atacar em Moscou.

Com Enrique Diaz à frente do Grupo Galpão, o diretor documentou por três semanas os ensaios da peça As Três Irmãs, de Anton Tchekov. A proposta não era encená-la de fato, mas buscar caminhos para a apreensão das personagens, dar início ao processo de criação.

Esse exame, no entanto, não se restringe ao método como guia – ele se volta à relação do ator com o outro e consigo mesmo, numa investigação pessoal das possibilidades de conexão de subjetividade e alteridade. É por meio dessa busca que ele encontra a personagem em suas lembranças de infância, em seus desejos, em seus medos, fazendo do encenado e do vivido uma coisa só.

É interessante dar atenção ainda à unidade dos assuntos que Coutinho vem tratando em seus últimos filmes, conectados pela necessidade de propor explicações à gênese do processo de comunicação. Quando a câmera “ouve” a história de vida de uma mulher em Jogo de Cena ou quando se aproxima – a ponto de nos incomodar – do rosto de um ator que se apropria das palavras de Tchekov, ela quer evidenciar qualquer coisa escondida sob o mistério da relação entre duas pessoas, ou entre artista e público.

derivaÀ Deriva, do diretor Heitor Dhalia, é um filme de altos e baixos que coincidem com os pontos fortes e fracos de suas atuações. Ambientado num balneário brasileiro dos anos 70, ele narra o esfacelamento das relações de confiança numa família aparentemente perfeita, mas que na verdade luta para manter o fio que ainda os une. As cenas em sépia se alongam e se repetem no compasso das ondas, como se quisessem jogar a responsabilidade de contar a história para os atores.

O resultado é tocante quando a câmera se detém sobre a dor da personagem de Débora Bloch. Ela interpreta com delicadeza uma mãe dividida entre o amor pelos três filhos e o desejo de desfazer um casamento fracassado. Talvez sejam esses os melhores momentos de À Deriva.

O problema é que a maior parte das cenas está centrada na personagem da filha mais velha, interpretada pela estreante Laura Neiva, ainda imatura como atriz. Seu vagar um tanto pachorrento e desorientado pela tela não funciona para transmitir a força de uma menina de 14 anos atormentada pelas mentiras e ilusões do mundo adulto.

Num filme recheado de crianças, Heitor Dhalia quis ir à procura de rostos desconhecidos, o que costuma ser interessante. Mas a verdade é que o papel entregue a Neiva merecia uma atriz com mais experiência em frente à câmera.

Por tudo isso, À Deriva é o tipo de película que nos faz alternar entre momentos de sonolência e interesse, como se dois filmes disputassem espaço cena a cena.

Esqueci de destacar ainda a atuação de Vincent Cassel, que interpreta o pai da família. Com um português bem convincente, ele soube se integrar ao elenco com maestria, dando vida às nuances de uma personalidade dividida entre trabalho, filhos e impulsos machistas.

Você já parou para pensar em como se comporta numa exposição de artes plásticas? Quanto tempo, em média, você gasta em frente aos quadros? Em que você pensa enquanto os observa? Você lê as placas com informações sobre as obras antes ou depois de contemplá-las? Por quanto tempo você continua pensando em uma ou mais obras depois de deixar a exposição?

No filme As Horas de Verão – ainda em cartaz no Rio – essas perguntas encontram lugar de forma sutil. Aqui, o conflito principal é entre diferentes noções de valor de uma obra de arte. Para alguns, mais valem as lembranças que um quadro desperta. Ainda que sem muito destaque na parede da sala, ele evoca histórias pessoais, é parte da memória de um grupo de pessoas.

Para outros, no entanto, o valor deste quadro deve ser medido em francos ou dólares, já que quase não terão oportunidades de contemplá-lo. O dinheiro lhes seria útil e por isso optam pela venda para museus, há tempos interessados em adquiri-los.

Já no final do filme, peças dessa coleção aparecem em uma exposição. Um grupo de turistas anda pelos corredores do museu sem se importar muito e, simulando algum interesse, passa de obra em obra com certa sonolência, a atenção já voltada para o que farão quando saírem dali.

Por coincidência, li hoje de manhã um texto de Michael Kimmelman, publicado no New York Times (e reproduzido no JB), que trata exatamente da pressa de se consumir o máximo de “cultura” no menor tempo possível. Ele diz ter dedicado uma manhã inteira para observar os visitantes de um dos pavilhões do Louvre, em Paris. Segundo o jornalista, a grande maioria dos turistas passeava pelas galerias distraidamente, não gastando mais de um minuto para apreciar cada obra.

A mesma tendência estende-se à leitura. Há alguns séculos, estudiosos reliam um mesmo livro dezenas de vezes sem achar que estavam perdendo tempo com isso. Durante toda uma vida, não liam muito mais que 100 livros. Hoje, aqueles que se querem cultos sentem-se obrigados a ler centenas de livros. E a releitura geralmente é vista como empecilho – é como encontrar uma figurinha repetida para nossa “coleção de cultura”.

Segundo Kimmelman, a proliferação de imagens competindo por atenção no mundo contemporâneo “libertou a cultura ocidental, mas também a deixou à deriva num oceano de estímulos superficiais, sem âncoras para mantê-la segura”. Os turistas de hoje, em sua opinião, substituem a qualidade da atenção pela quantidade de material que podem ver.

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OBS: Por falar em visitantes do Louvre, está em cartaz no Instituto Moreira Salles (IMS) a exposição O Louvre e seus Visitantes, com fotos do brasileiro Alécio de Andrade, que registrou por mais de 30 anos o cotidiano do museu.

Um capítulo

Cap. 68 de O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar:

Enquanto ele lhe amalava o noema, ela lhe dava com o clêmiso e ambos caíam em hidromurias, em abanios selvagens, em sústalos exasperantes. De cada vez que procurava relamar as incopelusas, ele emaranhava-se num grimado queixoso e tinha de envulsionar-se de cara para o nóvalo, sentindo como se, pouco a pouco, as arnilhas se espechunassem, se fossem apeltronando, reduplimindo, até ficar estendido como o trimalciato de ergomanina no qual se tivesse deixado cair umas filulas de cariacôncia. E, apesar disso, aquilo era apenas o principio, pois, em dado momento, ela tordulava-se os hurgálios, consentindo que ele aproximasse suavemente os seus orfelunios. Logo que se enteplumavam, algo como um ulucórdio os encrestoriava, os extrajustava e paramovia, dando-se, de repente, o clinón, a esterfurosa convulcante das mátricas, a jadeolante embocapluvia do órgumio, os esprêmios do merpasmo numa sobremítica agopausa. Evohé! Evohé! Volposados na crista do murélio, sentiam-se balparamar, perlinos e marulos. Tremia o troque, as marioplumas eram vencidas, e tudo se resolvirava num profundo pínice, em niolamas argutendidas gasas, em carínias quase cruéis que os ordopenavam até ao limite das gunfias.

Até agosto

Amanhã viajo para Cumuruxatiba, no sul da Bahia. Não atualizarei o blog até o dia 02 de agosto porque lá não tem conexão com a Internet (ainda bem).

Abs a todos.

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