É curioso como às vezes (e no meu caso são muitas) um livro vem, acidentalmente, somar-se de modo pertinente a determinado momento da vida. É quando sentimos que o acaso joga também a nosso favor.
Foi assim – por acaso – que comecei a ler Os Frutos da Terra, de André Gide, uma reunião de poemas e textos em prosa que pregam a necessidade de se lançar à vida com intensidade e sinceridade, numa valorização da experiência em oposição ao resguardo. Mais amor que sabedoria, eis o ensinamento que o escritor de apenas 28 anos desejava passar a Nathanael, seu discípulo fictício.
Enquanto outros publicam ou trabalham, passei três anos de viagem a esquecer, ao contrário, tudo o que aprendera com a cabeça. Essa desinstrução foi lenta e difícil; foi-me mais últil do que todas as instruções impostas pelos homens e, realmente, o começo de uma educação.
O livro foi escrito em 1897, momento em que a literatura francesa estava imersa no chamado decadentismo. Levados por uma visão pessimista do mundo, os adeptos dessa corrente buscavam a valorização extrema de uma sensibilidade estética que vinha se contrapor tanto ao realismo quanto ao naturalismo. Por meio de artifícios estilísticos diversos, eles compartilhavam o gosto pelas questões do inconsciente e pela manisfestação da “vida interior” de todas as coisas.
Apesar de ter escrito livros que tendiam ao decadentismo – como Les Cahiers d’André Walter (1891) e Les Poésis d’André Walter (1892), Gide insurgiu-se contra os rumos das letras francesas ao publicar Os Frutos da Terra. No prefácio à edição de 1927, ele diria: “Escrevi este livro num momento em que a literatura cheirava furiosamente a convenção e mofo; em que me parecia urgente fazê-la tocar de novo a terra e pousar simplesmente um pé no solo”.
Nathanael, eu te ensinarei o fervor. Nossos atos prendem-se a nós como a luz ao fósforo. Consomem-nos, é certo, mas fazem nosso esplendor. E se nossa alma pôde valer alguma coisa foi porque ardeu com mais ardor do que algumas outras.
Ele adotou a partir de então uma simplicidade de estilo que se tornaria sua marca, com a qual fez uma espécie de relato de sua própria descoberta do que considerava a verdadeira Vida.
O sentimento de uma plenitude de vida, possível mas ainda não-alcançada, deixava-se por vezes entrever, e tornava a voltar, cada vez mais obsessiva. Ah!, que uma nesga de luz se abra enfim, gritava, que arrebente em meio a essas eternas represálias!
Era como se todo o meu ser tivesse como uma necessidade imensa de se retemperar no novo. Aguardava uma segunda puberdade. Ah!, refazer uma visão nova para meus olhos, lavá-los da sujeira dos livros, torná-los mais semelhantes ao azul que contemplam – hoje completamente clareados pelas chuvas recentes.
Gide não deixou de acreditar em Deus, mas passou a buscá-lo em todas as coisas, a inventá-lo. Procurá-lo já era tê-lo. Além disso, deixou de lado a contemplação do mundo a que se dedicavam os decadentistas para prestar atenção em si próprio, para colocar-se no mundo, e não o contrário – “que teu olho seja a coisa olhada”, diria.
Ele não renunciou à leitura e ao pensamento, mas passou a acreditar que essas são práticas que devem somar-se a uma vida intensa, dedicada mais à volúpia que à reflexão.
(…) tu compreenderás que é somente com muita alegria que se compra algum direito ao pensamento. Será chamado realmente forte o homem que se diz feliz e pensa.