Passado mais de um mês do fim da Flip, pude ter uma visão melhor da repercussão causada pela visita do português Lobo Antunes ao Brasil. Muito se falou sobre sua obra, difícil num primeiro contato, mas aparentemente encantadora para muitos dos que insistem.
Minha preocupação não é a respeito da qualidade de seus livros, já que essa avaliação sempre foi e continua sendo subjetiva (o que, por outro lado, não deve impedir a crítica realmente interessada, é claro).
O que me incomoda é perceber o medo de parecer ignorante que impede grande parte de seus leitores de dizer algo tão simples como “achei chato” ao final de uma leitura. Eles buscam palavras como quem move-se num quarto escuro para relativizar suas opiniões frente a quem lhes parece “mais culto”. Questionam o próprio entendimento da obra para se juntarem à maioria.
Sim, é legítimo desconfiar de si mesmo quando se tem uma idéia ruim de algo que para todo o mundo parece bom (será que parece?). Mas é salutar apenas quando se assume o risco de ser sincero. Só então é que torna-se possível discutir, expor e ouvir argumentos para, quem sabe, mudar de opinião, tentar uma segunda leitura, prestar atenção a detalhes antes ignorados.
É evidente que uso Lobo Antunes apenas como exemplo. Esse mesmo fenômeno passa com qualquer escritor já consagrado. Se estiver morto então, a coisa fica ainda mais complicada. É um festival de engessamento que leva sempre a uma compreensão superficial da literatura.
Como disse no início do post, andei dando uma olhada no que se falou sobre os textos de Lobo Antunes desde a Flip e achei curioso como o discurso geral está envolto em um medo disfarçado de respeito que trava a discussão. Fica claro que muita gente nem chega ao fim de seus livros, mas prefere justificar o abandono com desculpas mais eruditas.
Pois eu prefiro dizer que acho o estilo de Lobo Antunes chato. É truncado, cheio de desvios e metáforas dentro de metáforas. Parece que para entender o que ele quer dizer sou obrigado a testemunhar um exercício de estilo cansativo.
Sei também, no entanto, que essa é uma opinião que, como qualquer outra, pode e deve mudar nos próximos anos. Daí a importância da releitura que, como diz Ariano Suassuna, é a verdadeira arte da leitura. Daí também a beleza da literatura, que dá novas e infinitas caras a um livro na medida em que nos transforma.
Para quem nunca leu Lobo Antunes, aí vai um trecho de O Conhecimento do Inferno, de 2006. (É claro que não se pode tirar desse parágrafo uma avaliação da obra do escritor – falta contexto para se entender o motivo da construção estética; quero apenas dar uma idéia de seu estilo, bem representado pelas linhas que seguem).
Os médicos chegavam às onze horas, examinavam clinicamente a língua do rio pelas varandas fechadas à chave, um rio aprisionado também nos caixilhos, azul e plano como as férias grandes, comungavam cafés rituais nos seus confessionários laicos separados por estreitas divisórias de tabiques, aumentavam ou diminuíam as doses dos remédios consoante o frenesim das pacientes, e entravam por fim, em grupo, na sala de jantar, distribuindo em volta sorrisos de tratadores. Cada sorriso gritava Eu sou saudável e tu és maluca mas se te portares bem talvez possa fazer alguma coisa por ti, conseguir que te tornes tão normal como nós, tão normal normal como nós, tão normal normal normal como nós, três pílulas ao pequeno almoço, três pílulas ao almoço, três pílulas ao jantar, as doentes aquietavam-se em silêncio, os internos disseminavam-se estrategicamente na plateia, Faz de conta por um bocadinho que somos todos iguais, o assistente instalava-se voltado para o público com a indulgência bondosa de um ministro num sarau de província, cruzava a perna e entre a meia e a calça reluzia um pedaço de carne peluda idêntica à gelatina dos polvos, à gelatina das gordas flores marinhas de Sesimbra, e sempre nesse momento, no exacto instante em que a sessão principiava, apetecia-me levantar-me latindo para morder aquele naco redondo de canela, a canela do Poder que oscilava como um pêndulo o sapato de verniz numa serenidade paciente.